A historicização da herança geracional segundo a teoria freudiana: um imperativo para os estudos psicanalíticos feministas

Virginia Helena Ferreira da Costa

Resumo


Procuramos expor o pluralismo de leituras da obra freudiana mediante a exploração da hipótese de historicização da formação psíquica dos sujeitos, especialmente relativa ao complexo de Édipo e Supereu. Partindo da perspectiva de estudos feministas, verificamos no corpus teórico freudiano se há a possibilidade de que o avanço sócio-histórico seja um fator de modificação de concepções que, na leitura freudiana clássica, seriam lidas como imutáveis, fixas e rígidas cultural e historicamente. Madelon Sprengnether, Nancy Chodorow e Judith Butler serão retomadas para criticar a leitura clássica e generalizante do complexo de Édipo enquanto “estrutural”, essencializado e substancializado. Sugerimos que, sendo uma lei hegemônica, a vivência edípica não pode ser completamente ultrapassada, mas pode ser performativamente atuada de formas desviantes de sua estrutura classicamente pensada por Freud. Nesse âmbito, a transmissão geracional é nosso enfoque primordial. Ela é debatida ao menos em três momentos complementares: na análise da filogênese, da herança arcaica e do Édipo social exposta em Totem e tabu (1913), na herança narcísica de expectativas e ideais compreendida em Introdução ao narcisismo (1914) e na teoria da perpetuação de valores e tradições morais via identificações geracionais superegoicas que consta nas Novas Conferências sobre Psicanálise (1933).


Palavras-chave


Freud. Feminismo. Herança geracional. Édipo. Supereu.

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DOI: http://dx.doi.org/10.7213/1980-5934.33.058.DS02

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