Sociobioeconomia e crise planetária: superando os limites do paradigma moderno
DOI:
https://doi.org/10.7213/rev.dir.econ.soc.v17i1.33067Palavras-chave:
Amazônia; biodiversidade; bioeconomia; epistemologia do sul; sociobioeconomia.Resumo
Este artigo analisa criticamente os limites do paradigma moderno diante da crise planetária contemporânea e propõe a sociobioeconomia como alternativa normativa e ontológica à racionalidade tecnocrática dominante. Com base em abordagem interdisciplinar e histórico-estrutural, o texto articula contribuições da história da ciência, ecologia política e economia ecológica para examinar a construção moderna da ciência, o modelo econômico centrado na exploração da natureza e os impactos desse arranjo no contexto do Antropoceno. A partir de autores como Kuhn, Shiva, Leff, Latour e Passet, além de dados empíricos de organismos internacionais, discute-se a necessidade de transição para modelos que reconheçam a centralidade da biodiversidade, dos saberes tradicionais e da justiça socioambiental. Nesse percurso, destaca-se a sociobioeconomia como proposta integrada de regeneração ecológica, protagonismo comunitário e pluralismo epistêmico, em especial nos territórios da Amazônia brasileira. O estudo conclui que superar a crise civilizatória exige não apenas inovações tecnológicas, mas sobretudo uma mudança de paradigma ancorada na ética do cuidado, na reciprocidade entre saberes e na valorização da vida em sua complexidade. A sociobioeconomia desponta, assim, como horizonte promissor para um novo pacto ecológico e civilizacional.
Downloads
Referências
ACOSTA, Alberto. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia Literária, 2016.
ALMEIDA. Mauro William B.; REZENDE, A. Uma nota sobre comunidades tradicionais e unidades de conservação. 2015. https://doi.org/10.53000/rr.v7i2.1887.
ALLAIN, Sandrine; RUAULT, Jean François; MORAINE, Marc; MADELRIEUX, Sophie. O debate bioeconomia vs bioeconomia: além das críticas, avanaçando nas frentes de pesquisa. Inovação Ambiental e Transição. Volume 42, p. 58-73m março, 2022.
ANAYA, James S. Indigenous Peoples in International Law. New York: Oxford University Press, 1996.
ASSAD, Ana Lucia Delgado. Biodiversidade: institucionalização e programas governamentais no Brasil. Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Campinas. Instituto de Geociências. Campinas, São Paulo., 2000.
BAIROCH, Paul; GOERTZ, Gary. Factors of Urbanisation in the Nineteenth Century Developed Countries: a Descriptive and Econometric Analysis. Urban Studies, v. 23, n. 4, p. 285–305, ago. 1986.
BIRCH, Kean. The problem of bioeconomy: the political economy of the bioeconomy and the neoliberalization of nature. Dialogues in Human Geography, v. 7, n. 3, p. 296–310, 2017.
BIRCH, Kean. Compreendendo a bioeconomia por meio de seus instrumentos: patrronizando a sustentabilidade, neolieralizando as bioeconomias? Springer Nature Link. Vol. 18. Pag. 583-597, 2023.
BOLZANI, Vanderlan da. S. Biodiversidade, bioprospecção e inovação no Brasil. Revista Ciência e Cultura, São Paulo, v.68, n.1, 2016.
BRANDÃO, M.; NOBRE, C.; ARIEIRA, J. Sociobioeconomia de florestas saudáveis em pé e rios fluindo. São Paulo: Fundação Amazônia Sustentável, 2023.
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC); Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE). Plano de Ação em Ciência, Tecnologia e Inovação em Bioeconomia. Brasília, DF: MCTIC/CGEE, 2018.
BRASIL. Decreto nº 5.051, de 19 de abril de 2004. Promulga a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre Povos Indígenas e Tribais. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 20 abr. 2004.
BRASIL. Decreto nº 10.747, de 23 de julho de 2021. Promulga o Protocolo de Nagoya sobre Acesso a Recursos Genéticos e Repartição Justa e Equitativa de Benefícios. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 26 jul. 2021.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente (MMA), GIZ, & GTPS. (2021). Produtos da sociobiodiversidade e cadeias de valor da bioeconomia. Brasília: MMA.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Convenção sobre diversidade biológica. Brasília: MMA, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/biodiversidade-e-biomas/biodiversidade1/convencao-sobre-diversidade-biologica. Acesso em: 15 abr. 2025.
CDB - Convenção sobre Diversidade Biológica. Texto da Convenção. Rio de Janeiro: PNUD/MMA, 1992.
CHRISTOFF, P. Ecological Modernisation, Ecological Modernities. Environmental Politics, 5(3), 476–500, 1996.
COMISSÃO EUROPEIA. Inovando para o crescimento sustentável: uma bioeconomia para a Europa. Bruxelas: European Commission, 2012. Disponível em: https://op.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/1f0d8515-8dc0-4435-ba53-9570e47dbd51. Acesso em: 10 jun. 2025.
CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA – CNI. Bioeconomia no Brasil: desafios e oportunidades para a indústria. Brasília: CNI,2020. Disponível em: https://www.portaldaindustria.com.br/cni/publicacoes/ (ou link específico conforme publicação).
DALY, Herman E. Beyond growth: the economics of sustainable development. Boston: Beacon Press, 1996.
DALY, Herman E.; FARLEY, Joshua. Ecological Economics: Principles and Applications. 2. ed. Washington: Island Press, 2011.
DIAS, Reinaldo; CARVALHO, Ana Claudia. Georgescu-Roegen: um precursor da bioeconomia. Revista Ambiente & Sociedade, v. 20, n. 2, p. 231–248, 2017.
DIEGUES, Antonio Carlos. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec, 1998. p. 25.
DINIZ, M.B. et al. Região Amazônica: biodiversidade e possibilidades de transformação industrial Centro de Pesquisas Econômicas da Amazônia. Cadernos CEPEC, V. 6, N. 5, maio de 2017.
EMBRAPA. Bioeconomia: oportunidades para o setor agropecuário. Brasília: Embrapa, 2022. Disponível em: https://www.embrapa.br. Acesso em: [24 de abril de 2025].
ESCOBAR, A. Territories of Difference: Place, Movements, Life, Redes. Durham: Duke University Press, 2008.
GARRET, Rachael; FERREIRA, Joice; ABRAMOVAY, Ricardo; BRANDÃO, Joyce; BRONDIZIO, Eduardo; EULER, Ana; PINEDO, Daniel; PORRO, Roberto; ROCHA, Emiliano Cabrera; SAMPAIO, Oscar; SCHMINK, Marianne; VARESE, Mariana. Apoiando sociobioeconomias de saudáveis florestas. Policy Brief. Science Panel for the Amazon, 2023. Disponível em: https://www.theamazonwewant.org. Acesso em: 15 jun. 2025.
GEORGESCU-ROEGEN, Nicholas. The Entropy Law and the Economic Process. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1971.
GUDYNAS, Eduardo. Desenvolvimento sustentável e direitos da natureza: ensaios sobre políticas de pós-extrativismo. Revista Crítica de Ciências Sociais, n. 93, p. 143-176, 2011.
GUDYNAS, Eduardo. Direitos da natureza: etica biocêntrica e políticas ambientais., n. 93, p. 143-176, 2020.
GRAND VIEW RESEARCH. Biotechnology market size to reach $3.88 trillion by 2030. 2023. Disponível em: https://www.grandviewresearch.com/press-release/global-biotechnology-market. Acesso em: 11 jun. 2025.
IPAM – Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. As contribuições das terras indígenas para o combate à mudança climática. Brasília: IPAM, 2022. Disponível em: https://ipam.org.br. Acesso em: [13 de maio de 2025].
KIRCHER, Manfred. Bioeconomy: Markets, Implications, and Investment Opportunities Economies 7, no. 3: 73. 2019. https://doi.org/10.3390/economies7030073.
LATOUR, Bruno. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Tradução de Eduardo Brandão. São Paulo: Editora Ubu, 2019.
LEFF, Enrique. Racionalidade ambiental: a apropriação social da natureza. México: Siglo XXI Editores, 2004.
LEFF, Enrique. Ecologia e capital: racionalidade ambiental, democracia participativa e desenvolvimento sustentável. México: Siglo XXI Editores, 1994 (2. ed. 2010).
LEFF, Enrique. A aposta por la vida: Imaginación sociológica y racionalidad ambiental. Ciudad de México: Siglo XXI, 2015.
LITTLE, Paul E. Ecologia política e conservação na Amazônia: o exemplo da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. In: VIANA, V. M.; MENESES-FILHO, L. C. (orgs.). Instrumentos econômicos para o desenvolvimento sustentável da Amazônia brasileira. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2002. p. 139–162.
MARKETLINE. Brazil Biotechnology Market Summary, Competitive Analysis and Forecast to 2028. London: MarketLine, 2024.
MARTINEZ-ALIER, Joan. O ecologismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valoração. São Paulo: Contexto, 2007.
MEADOWS, Donella H. et al. The Limits to Growth. New York: Universe Books, 1972.
MERCHANT, C. (2020). The Anthropocene and the Humanities: From Climate Change to a New Age of Sustainability. Yale University Press.
MOL, A. P. J.; SPAARGAREN, G. (2000). Ecological Modernisation Theory in Debate: A Review. Environmental Politics, 9(1), 17–49.]
MOL, A. P. J., & SONNENFELD, D. A. Ecological Modernisation Around the World: Perspectives and Critical Debates. Routledge, 2000.
MOORE, Jason W. Capitalism in the Web of Life: Ecology and the Accumulation of Capital. London: Verso, 2015.
MOREIRA, R. M. Bioeconomia: marco conceitual e desafios para o Brasil. Revista de Economia Contemporânea, v. 20, n. 3, p. 349–376, 2016.
MCCORMICK, Katrin; KAUTTO, Petrus. The bioeconomy in Europe: An overview. Sustainability, Basel, v. 5, n. 6, p. 2589–2608, 2013. https://doi.org/10.3390/su5062589.
NASEM – National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Safeguarding the Bioeconomy. Washington, D.C.: The National Academies Press, 2020.
NIXON, R. Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Harvard University Press, 2011.
NOBRE, C. A., BRANDÃO, D. O.; ARIEIRA, J. O futuro em jogo: sociobioeconomia de florestas saudáveis em pé e rios fluindo na Amazônia. Stanford Social Innovation Review Brasil (Especial Amazônia). 2024.
OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. The Bioeconomy to 2030: Designing a Policy Agenda. Paris: OECD Publishing, 2009.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente Humano. Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, Estocolmo, 5 a 16 de junho de 1972. São Paulo: CETESB, 2016. Disponível em: https://cetesb.sp.gov.br/wp-content/uploads/sites/33/2016/09/Declaracao-de-Estocolmo-5-16-de-junho-de-1972-Declaracao-da-Conferencia-da-ONU-no-Ambiente-Humano.pdf. Acesso em: 11 abr. 2025.
PEARCE, David W.; MARKANDYA, Anil; BARBIER, Edward B. Blueprint for a Green Economy. London: Earthscan, 1989.
RAMOS, S. de F. et al. Desafios e Potenciais da Sociobiodiversidade do Estado de São Paulo: aspectos da produção. Análises e Indicadores do Agronegócio, São Paulo, v. 18, n. 1, p. 1-7, jan. 2023.
RICHARDSON, Katherine et al. Earth beyond six of nine planetary boundaries. Science Advances, v. 9, n. 37, p. eadh2458, 2023. Disponível em: https://www.science.org/doi/10.1126/sciadv.adh2458. Acesso em: [25 de maio de 2025].
ROCKSTROM, Johan et al. A safe operating space for humanity. Nature, v. 461, p. 472–475, 2009. DOI: https://doi.org/10.1038/461472a.
RONZON, Tévézia; IOST, Sandra; PHILIPPIDIS, George. Developments of the bioeconomy in the EU: An overview. New Biotechnology, v. 66, p. 34–44, 2022.
SACHS, Ignacy. Caminhos para o desenvolvimento sustentável. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.
SACHS, Ignacy. Rumo à Ecossocioeconomia: Teorias e Práticas do Desenvolvimento. Rio de Janeiro: Garamond, 2015.
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n. 78, p. 3–46, 2007.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A Non-Occidentalist West?: Learned Ignorance and Ecology of Knowledge. Theory, Culture & Society, London, v. 26, n. 7–8, p. 103–125, 2009/2010.
SANTOS, Boaventura de Sousa. O fim do império cognitivo: a afirmação das epistemologias do Sul. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
SILVA, Liana Amin Lima da; DOURADO, Sheilla Borges; SILVA, Chris Lopes da. Saberes tradicionais e a afirmação da identidade étnica: lições dos povos indígenas do Amazonas para uma proteção jurídica plural e decolonial. In: SCHIOCCHET, Taysa ; SOUZA FILHO, Carlos Frederico de (coord.). Direito, biotecnologia e sociedades tradicionais. Editora Juruá. Curitiba, 2021, p. 255.
SIMÕES, Sandro Nery. Estado moderno e constitucionalismo plurinacional andino. Curitiba, Juruá, 2017.
SCHMID, Olaf et al. Bioeconomy in Europe: An overview. Technology Analysis & Strategic Management, v. 24, n. 10, p. 951–963, 2012. https://doi.org/10.1080/09537325.2012.705215
STEFFEN, Will et al. Planetary boundaries: Guiding human development on a changing planet. Science Advances, v. 347, n. 6223, p. 1259855, 2015. DOI: https://doi.org/10.1126/science.1259855.
STEFFEN, Will et al. Earth beyond six of nine planetary boundaries. Science Advances, v. 9, n. 37, eadh2458, 2023. DOI: https://doi.org/10.1126/sciadv.adh2458.
TEEB (The Economics of Ecosystems and Biodiversity). Mainstreaming the Economics of Nature: A synthesis of the approach, conclusions and recommendations of TEEB. Synthesis Report. United Nations Environment Programme – UNEP, 2010.
UNEP – United Nations Environment Programme. Towards a Green Economy: Pathways to Sustainable Development and Poverty Eradication. Nairobi: UNEP, 2011.
VALLI, M.; RUSSO, H. M.; BOLZANI, V. S. The potential contribution of the natural products from Brazilian biodiversity to bioeconomy. Anais da Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro, v. 90, n. 1 (Supl.), p. 763–778, 2018.
VIOLA, Eduardo; LEIS, Héctor R. Desordem global da biosfera e nova ordem internacional: o papel organizador do ecologismo. In: LEIS, Héctor R. (org.) Ecologia e política mundial, 2001.
WALSH, Catherine. Interculturalidade e colonialidade do poder: Um pensamento e posicionamento outro a partir da diferença colonial. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula (orgs.). Epistemologias do Sul. São Paulo: p. 273–303. Cortez, 2012..
WORLD ECONOMIC FORUM (WEF). Global Risks Report 2024. Geneva: World Economic Forum, 2024. Disponível em: https://www.weforum.org/reports/global-risks-report-2024. Acesso em: 10 jun. 2025.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Lena Andréa Lima Muniz, Maria do Perpétuo Socorro Rodrigues Chaves

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
- Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Creative Commons - Atribuição 4.0 Internacional que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).


















