A literatura infantil e juvenil brasileira contemporânea e a desobediência epistêmica: reflexões e impasses

Telma Borges Silva

Resumo


Este trabalho visa realizar uma reflexão sobre a literatura infantil e juvenil produzida no Brasil após
a Lei 10.639/2003, explicitando em que medida ela vai ou não ao encontro do que é postulado pelo
documento legal. Para tanto, valho-me das noções de “política de identidade” e de “identidade em
política”, pensadas por Walter Mignolo, quando discute o que é “desobediência epistêmica”. Faço
um diálogo com Michel Foucault, a partir de sua reflexão sobre episteme e com base no prefácio de As palavras e as coisas. A concepção de estereótipo e seus usos na literatura brasileira, conforme apresentado em Bastide, Brookshow e Proença Filho, contribui para uma incursão na história da literatura infantil e juvenil brasileira, que dividi em 5 fases, para evidenciar sua relação direta com as temáticas produzidas pela literatura brasileira dita para os adultos, destacando os estereótipos produzidos para tipificar os negros e cristalizando uma visão monotópica dessas personagens. Como contraponto a essa discussão, apresentei uma breve análise do livro O tronco do Ipé, de José de Alencar, no qual esses estereótipos se manifestam com bastante clareza. Destaquei algumas produções literárias da quinta fase para demonstrar em que medida elas avançam desconstruindo esses estereótipos, assinalando para conhecimentos pluriversais ou permanecem no sistema universal da episteme ocidental. No primeiro grupo, há aqueles livros que conservam o substrato cultural eurocêntrico, fazendo alguns ajustes para reacomodar personagens e espaços, dando uma nova coloração ao mito da democracia racial. No segundo, destaquei de que modo as produções baseadas em estudos sobre as culturas africanas, que fundamentam a afro-brasileira, apontam na direção da pluralidade praticando, portanto, a desobediência epistêmica.


Palavras-chave


Literatura infantil e juvenil brasileira; desobediência epistêmica; estereótipo; Lei 10.639/2003.

Texto completo:

PDF

Referências


ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. Trad. Alfredo Bosi. São Paulo: WFM/Martins Fontes, 2012. Episteme. p. 391.

AGOSTINHO, C.; COELHO, R. S. (Adapt.). Chapeuzinho vermelho e o boto-cor-de-rosa. Ilustrações de Walter Lara. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2020.

AGOSTINHO, C.; COELHO, R. S. (Adapt.). O pequeno Polegar. Ilustrações de Walter Lara. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2019.

ALENCAR. J. de. O Tronco do Ipê. In: Obra completa. Afrânio Coutinho (Org.) Rio de Janeiro: José Aguilar, 1958. p. 625-812. (Vol. III).

ANDERSON, B. Nação e Consciência Nacional. Trad. Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Ática, 1989.

BAKHTIN, M. Problemas da poética de Dostoiévski. 5. ed. rev. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2010.

BASTIDE, R. Estudos afro-brasileiros. São Paulo: Perspectiva, 1972.

BILAC, O.; COELHO, N. Contos Pátrios. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1961.

BRASIL. Lei 10.639/2003. Disponível em: http://etnicoracial.mec.gov.br/images/pdf/lei_10639_09012003.pdf. Acesso em: 29 ago. 2020.

BROOKSHAW. D. Cor e raça na literatura brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.

COELHO NETO, H. M. Panorama Histórico da Literatura Infantil e Juvenil. São Paulo: Ática, 1991.

FOUCAULT, M. As palavras e as coisas. Trad. Salma Tannus Muchail. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

FRANÇA, L. F. Personagens negras na literatura infantil brasileira: da manutenção à desconstrução do estereótipo. 2006. 167 fls. Dissertação (Mestrado em Estudos de Linguagem) — Universidade Federal do Mato Grosso: Instituto de Linguagens, 2006.

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009.

LAJOLO, M.; ZILBERMAN, R. Literatura Infantil Brasileira: história e histórias. São Paulo: Ática, 2002.

LAJOLO, M.; ZILBERMAN, R. Um Brasil para crianças: para conhecer a Literatura Infantil Brasileira: histórias, autores e textos. São Paulo: Ática, 1993.

LISBOA, A. A bonequinha preta. Ilustração: Ana Raquel. 3. ed. Belo Horizonte: Editora Lê, 2004.

LOBATO, M. Histórias de Tia Nastácia. São Paulo: Brasiliense, 1995.

MACHADO, A. M. Menina bonita do laço de fita. 9. ed. Ilustrações Claudius. São Paulo: Ática, 2011. (Coleção Barquinho de Papel).

MIGNOLO, W. Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF, língua e identidade, n. 34, p. 287-324, 2008.

MIRANDA, A. O pequeno príncipe das ruas. Ilustrações André Vieira. São Paulo: Editora Uirapuru, 2018.

PRANDI, R. Ifá, o adivinho. Ilustrações: Pedro Rafael. São Paulo: Cia das Letrinhas, 2017.

PRANDI, R. Oxumaré, o Arco-íris. Ilustrações: Pedro Rafael. São Paulo: Cia das Letrinhas, 2017.

PRANDI, R. Xangô, o trovão. Ilustrações: Pedro Rafael. São Paulo: Cia das Letrinhas, 2003.

PROENÇA FILHO, D. A trajetória do negro na literatura brasileira. Revista de Estudos Avançados, v. 18, n. 50, 2004.

RIBEIRO, D. O que é lugar de fala. Belo Horizonte: Letramento, 2017. (E-book).

SCHWARCZ, L. M. O espetáculo das raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870-1930. São Paulo: Cia das Letras, 1993.

SERVILHA, M. de M. Espaço, estigma e sujeito: reflexões na produção de uma geografia social crítica. Revista da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia (Anpege), v. 15, n. 26, p. 36-66, jan./mar. 2019.

SOUZA, Z. L. Do discurso político ao discurso literário: o (não) lugar do negro na nação imaginada por José de Alencar. 149 fls. Dissertação (Mestrado em Estudos Literários) — Universidade Estadual de Montes Claros: Programa de Pós-Graduação em Letras / Estudos Literários, Montes Claros, 2015.

TOLENTINO, L. Por uma infância sem racismo, “Chapeuzinho Vermelho e o Boto Cor-de-Rosa”. In: Carta Capital. 2020. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/opiniao/por-uma-infancia-sem-racismo-chapeuzinho-vermelho-e-o-boto-cor-de-rosa/. Acesso em: 29 ago. 2020.




DOI: https://doi.org/10.7213/1980-5934.33.059.DS02

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




Direitos autorais 2021 Editora Universitária Champagnat

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.