O combate ao racismo e a descolonização das práticas educativas e acadêmicas

Nilma Lino Gomes

Resumo


O processo de descolonização das mentes e das práticas como ação de combate ao racismo nas sociedades é tenso e conflituoso. A educação talvez seja o espaço em que essa tensão é mais visível. Há apagamentos históricos e epistemológicos presentes nos currículos, nas propostas e nas práticas educacionais, tanto na Educação Básica quanto no Ensino Superior que só serão superados se o campo educacional e a produção científica compreenderem-se como espaços que precisam descolonizar-se. Esse artigo discute o desafio da Educação Básica e do Ensino Superior na realização de práticas pedagógicas e epistemológicas que combatem o racismo e a desigualdade racial na escola e na universidade. Compreende esse processo como parte da descolonização das mentes, do conhecimento e dos currículos, tão necessários em países com histórico colonial e estruturalmente desiguais como é o caso do Brasil. Dialoga com o contexto político antidemocrático, instaurado no país após as eleições de 2018, com a ascensão da extrema direita ao poder e o seu processo de desmonte das políticas sociais e de igualdade racial implementadas pelos governos anteriores de cunho progressista. Questiona até que ponto o antirracismo se faz presente na sociedade e na educação brasileira, revelando um movimento contraditório presente nas ações e no imaginário social diante do racismo: as pessoas se mostram indignadas, porém, tendem a permanecer imóveis diante de um fenômeno tão perverso. Discute, ainda, que o combate e a superação ao racismo parecem uma boa proposta para colocar a descolonização em ação, tanto na sociedade quanto na educação, desde que não se invisibilize e silencie as negras, os negros e o Movimento Negro – suas lutas, memórias propostas políticas alternativas –, enquanto os principais sujeitos sociais e coletivos que nos reeducam nesse processo e com os quais temos muito ainda a aprender.


Palavras-chave


Descolonização; negritude; práticas pedagógicas e epistemológicas; racismo; antirracismo

Texto completo:

PDF

Referências


ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSSEXUAIS – ANTRA. Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2018, Brasília: ANTRA,2018.

AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen, 2019.

BENTO, M. A. S. BRANQUEAMENTO E BRANQUITUDE NO BRASIL. In: CARONE, I.; BENTO, M. A. S. (Orgs). Psicologia social do racismo: Estudos sobre branquitude e branqueamento no Brasil. Petrópolis: Vozes, 2003.

BUENO, S.; LIMA, R. S. (Coords). Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2020.

CAMPELLO, T. (coord). Faces da desigualdade no Brasil: um olhar sobre os que ficam para trás. Brasília: Flacso/Clacso, 2017.

CERQUEIRA, D.; BUENO, S. (Coords). Atlas da violência 2020. Brasília: IPEA, 2020. Disponível em: http://www.ipea.gov.br. Acesso em: 18 nov. 2020.

COLLINS, P. H. Pensamento feminista negro. São Paulo: Boitempo, 2019.

CONCEIÇÃO, W. L. Brancura e branquitude: ausências, presenças e emergências de um campo de debate. 2017. 430 f. Dissertação (Pós-graduação em Antropologia Social) — Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2017.

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero. Estudos Feministas, ano 10, v. 1, p. 188, 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ref/v10n1/11636.pdf. Acesso em: 11 jan. 2021.

FANON, F. Pele negra, máscaras brancas. Rio de Janeiro: Fator, 1983.

FRANKENBERG, R. White women, race masters: the social construction of whiteness. Minnesota: University of Minnesota, 1993.

GOMES, N. L. (Org). Práticas pedagógicas de trabalho com a questão racial na escola na perspectiva da Lei 10.639/03. Brasília: SECADI/MEC, 2012.

GOMES, N. L. Educação cidadã, etnia e raça: o trato pedagógico da diversidade. In: CAVALLEIRO, E. (Org.) Racismo e anti-racismo na educação; repensando nossa escola. São Paulo: Selo Negro, 2001.

GOMES, N. L.; TEODORO, C. Um país que extermina crianças e adolescentes negros já está morto. 2020. Disponível em: https://midianinja.org/author/nilmalinogomes/. Acesso em: 14 jan. 2021.

GROSFOQUEL, R. Para uma visão decolonial da crise civilizatória e dos paradigmas da esquerda ocidentalizada. In: BERNARDINO-COSTA, J.; MALDONADO-TORRES, N.; GROSFOGUEL, R. Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Desigualdades sociais por cor ou raça no Brasil In: ESTUDOS E PESQUISAS. Informação Demográfica e Socioeconômica. Rio de Janeiro: IBGE, 2019.

LEGIÃO URBANA. Que país é este. Barueri: EMI. Odeon.1987. CD (36:10)

MENESES, M. P. Reconfigurações identitárias e a fractura colonial: a encruzilhada dehistórias esquecimentos e memórias. In: Colóquio “Memórias de África”, 8 e 9 de Maio, Portimão, Instituto de Cultura Ibero-Atlântica. Anais... Portimão, 2009.

SANTANA, P. M. S. Rompendo as barreiras do silêncio: projetos pedagógicos discutem relações raciais em escolas municipais de Belo Horizonte. In: GONÇALVES E SILVA, P. B.; PINTO, R. P. Negro e educação: presença do negro no sistema educacional brasileiro. São Paulo: Anped/Ação Educativa, 2001.




DOI: http://dx.doi.org/10.7213/1980-5934.33.059.DS06

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




Direitos autorais 2021 Editora Universitária Champagnat

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.