O “lamarckismo” de Freud e a polarização das interpretações

Marcelo Galletti Ferretti

Resumo


Frequentemente se aponta o “lamarckismo” de Freud. Nas poucas vezes em que foi empreendida com algum rigor historiográfico, a investigação desse traço se prestou ora a denunciar o caráter pseudocientífico da psicanálise, ora a defender o lugar periférico, tardio e, por conseguinte, dispensável de tal “lamarckismo” na obra freudiana. Essas posições devem ser matizadas. Este artigo pretende realizar essa tarefa procurando desfazer os anacronismos que o termo “lamarckismo” abriga e remontar às influentes visões de Ernest Jones, Frank Sulloway e Lucille Ritvo sobre a questão.


Palavras-chave


Freud; lamarckismo; hereditariedade; evolução; anacronismo

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DOI: https://doi.org/10.7213/1980-5934.33.060.DS06

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