Gendrificação, ciência e ética em contextos de experiência reprodutiva

Marlene Tamanini

Resumo


A reflexão proposta neste texto foi construída na interface com o contexto da intervenção e da expansão das especialidades, trabalhando com reprodução humana hoje. Essas atividades têm aumentado as práticas de fragmentação corporal, a intervenção em órgãos, células e embriões para conseguir bebês, e são conhecimentos, protocolos e redes de especialidades que estão se intensificando; nelas os especialistas encontram-se bem posicionados. É uma biossociabilidade na qual, concomitantemente aos processos de reprodução laboratorial, ocorre intenso desenvolvimento biotecnológico, de alta tecnologia em laboratórios e de microscópios de grande magnitude, meios de cultivo e forte investimento no treinamento e no conhecimento do material reprodutivo humano; como aspectos interventores e fazedores dos processos desenvolvidos sobre óvulos, sêmen e embriões. O campo da reprodução, portanto, não diz respeito somente ao corpo de mulheres. Permitiu a entrada das práticas de tratamento também para os homens com problemas de infertilidade ou de infecundidade, termo mais apropriado para as relações homoafetivas. Estabelece-se, assim, uma vasta dinâmica em que o uso de gametas, os diagnósticos sobre embriões e sua utilização para fins de pesquisa,as intervenções da indústria terapêutica, a vasta difusão do uso de hormônios e de novos meios de cultivo formam importantes processos globais na ordem reprodutiva.Essas práticas constroem valores que são analisados neste texto, focando-se os desafios interpostos à ética do cuidado, às perguntas sobre adoção de bebês versus as decisões conflitivas por reprodução assistida, a ordem do desejo e os desafios aos processos de filiação nas diversas conjugalidades.

Palavras-chave


Gendrificações da ciência; Reprodução assistida; Ética do cuidado; Desejo; Conjugalidades.

Texto completo:

PDF

Referências


ATLAN, H. O útero artificial. Rio de Janeiro: FIOCRUZ, 2006.

BAUMAN, Z. Amor líquido. São Paulo: J. Zahar, 2004.

BESTARD, C. J. Tras la biologia: la moralidad del parentesco y las nuevas tecnologías de reproducción. Barcelona: Universidad de Barcelona, 2004.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução n. 1. 957, de 15 de dezembro de 2010. A Resolução CFM n. 1.358/92, após 18 anos de vigência, recebeu modificações relativas à reprodução assistida, o que gerou a presente resolução, que a substitui in totum. Diário Oficial da União, Seção I, p. 7. 6 jan. 2011. Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2011.

DINIZ, D.; COSTA, R. Infertilidade e infecundidade: acesso às novas tecnologias conceptivas. Brasília: LetrasLivres, 2005. (SérieAnis 34).

DUMOND, L. Homo Hierarchicus. São Paulo: EDUSP, 1992.

FREUND, J. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense, 1987.

FITO, C. Identidad, cuerpo y parentesco: etnografia sobre la experiencia de la infertilidad y la reproducción asistida en Cataluña. Barcelona: Bellaterra, 2010.

FONSECA, C. A vingança de Capitu: DNA, escolha e destino na família brasileira contemporânea. In: BRUSCHINI, C.; UNBEHAUM, S. G. (Org.). Gênero, democracia e sociedade brasileira. São Paulo: FCC; Editora 34, 2002. p. 267-293.

FONSECA, C. A certeza que pariu a dúvida: paternidade e DNA. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 2, p. 13-34, 2004.

FONSECA, C. Da circulação de crianças à adoção internacional: questões de pertencimento e posse. Cadernos Pagu, Campinas, v. 26, p. 11-43, 2006.

FONSECA, C. De família, reprodução e parentesco: algumas considerações. Cadernos Pagu, Campinas, v. 29, p. 9-35, 2007.

GARRAU, M.; LE GOFF, A. Care, justice et dépendence: introduction aux théories du care. Paris: Universitaires de France, 2010.

GIDDENS, A. et al. Las consecuencias perversas de la modernidade. Tradução de Celso Sánchez Capdequí. Barcelona: Anthropos, 1996.

GILLIGAN, C. In a different voice: psycological theory and women´s development. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1982.

GOFFMAN, E. Stigma: les usages sociaux du handicap. París: Minuit, 1975.

LATOUR, B. A esperança de pandora. Bauru: EDUSC, 2001.

LATOUR, B. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Bauru: EDUSC, 2004.

LOWY, I.; GARDEY, D. L’ Invention de naturel. Paris: Archives Contemporâneos, 2000.

MATHIEU, N. Identité sexuelle/sesueé/de sexe? In: MATHIEU, N. L’Anatomie politique. Paris: Cote Femmes, 1991. p. 17-55.

RAGO, E. J. A ruptura do mundo masculino da medicina: médicas brasileiras no século XIX. Cadernos Pagu, Campinas, n. 15, p. 199-225, 2000.

SPAR, D. L. O negócio de bebês: como o dinheiro, a ciência e a política comandam o comércio da concepção. Coimbra: Amedina, 2007.

SVENDSEN, M. N.; KOCH, L. Unpacking the ‘Spare Embryo’: facilitating stem cell research in a moral landscape. Social Studies of Science, v. 1, n. 38, 2008. Disponível em: . Acesso em: 10 maio 2011.

TAMANINI, M. Novas tecnologias reprodutivas conceptivas: bioética e controvérsias, um ensaio. Revista de Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 1, p. 73-107, 2004.

TAMANINI, M. Novas tecnologias reprodutivas conceptivas: o paradoxo da vida e da morte. Revista Tecnologia e Sociedade, Curitiba, n. 3, p. 211-249, 2006.

TAMANINI, M. Reprodução assistida e gênero: o olhar das ciências humanas. Florianópolis: UFSC, 2009.

TAMANINI, M. Tecnologias reprodutivas conceptivas: imperativo da maternidade? Ou outro lugar de fala? In: RIAL, C.; PEDRO, J. M.; AREND, S. M. F. Diversidades: dimensões de gênero e sexualidade. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2010. p. 209-231.

TIN, L. G. L´invention de la culture héterosexuelle. Paris: Éditions Autrement, 2008.

THERY, I. El anonimato en las donaciones de engendramiento: filiación e identidad narrativa infantil en tiempos de descasamiento. Revista de Antropologia Social, Madrid, v. 18, p. 21-42, 2009.

WALDBY, C. ‘Oöcyte markets: women’s reproductive work in embryonic stem cell research’. New Genetics and Society, v. 1, n. 2, p. 19-31, 2008.

WALDBY, C.; COOPER, M. The female body and the stem cell industries. Feminist Theory, University of Sydney, v. 1, n. 11, p. 3-22, 2010.

WEBER, M. Metodologia das ciências sociais. São Paulo: Cortez, 1992.




DOI: http://dx.doi.org/10.7213/revistapistispraxis.6042

Apontamentos

  • Não há apontamentos.




Direitos autorais 2017 Editora Universitária Champagnat

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.