A Literatura Mítica e o Estado: Os Arquétipos da Racionalidade Ético-civilizatória | Mythic Literature and the State: The Archetypes of Ethical-Civilizing Rationality

Romilson Silva Sousa

Resumo


A grande mortalidade de negros e pobres em nossa contemporaneidade, abre uma reflexão sobre a vida, a ética e a justiça e suas relações com a necropolítica nos forçando a repensar o Estado e sua racionalidade ético-civilizatória (SOUSA, 2020b). Compreender o Estado, a Ciência Política e seus arquétipos é necessário para entendermos as origens das relações de poder e as relações étnico-raciais que marcaram e marcam a formação e a reprodução da iniquidade na história da raça humana. Denunciada pela literatura marginal dos pesquisadores e intelectuais negros (SOUZA, 2000) a literatura oficial carece de suplementação de outras perspectivas. Considerando que apesar de tradições historiográficas diferentes, tanto para Nietzsche como para Foucault e Paul Ricoeur, a verdade é histórica, pensar a interdisciplinaridade entre história, filosofia e literatura, implica em construir um tipo de genealogia das relações de poder sob a ótica de uma ética que é civilizatória e epistêmica. Considerando que as narrativas míticas podem recompor um saber eticamente comprometido com novas epistemologias e novas perspectivas interpretativas. Deste modo a importância da literatura mítica (SOUSA, 2020, 2020b) para a recomposição epistemológica de discursos na literatura bíblica. Uma pergunta foi o ponto de partida: quais as contribuições da literatura mítica para a compreensão da Ciência Política? Nosso objetivo então foi identificar aspectos da literatura mítica capaz de contribuir para uma outra interpretação para a ciência política. Tivemos por objetivos específicos: compreender a razão e a racionalidade de estado; analisar a racionalidade ético-civilizatória no Estado; identificar o papel dos arquétipos na literatura mítica e suas contribuições para a formação do Estado.  Partindo dos processos de formação histórico-cultural e da dialética presente nas relações étnico-raciais nas racionalidades ético-civilizatórios, a literatura mítica (SOUSA, 2020) utilizamos como referências principais no estudo da cultura e civilização egípcia:  Camara (2011), Diop (1974, 1991, 2014). Serviram também como fonte de pesquisa bibliográfica a literatura bíblica e a egípcia. Utilizamos uma metodologia baseada na bricolagem (KINCHELOE & BERRY, 2007). Sugerimos em nosso trabalho sugere a necessidade de considerarmos a literatura mítica na análise das relações entre poder e o Estado, a partir dessa literatura como um lócus epistêmico para a outra compreensão da materialidade teoria do Estado.

 

Abstract
The high mortality of blacks and the poor in our contemporaneity opens a reflection on life, ethics and justice and its relations with the necropolitics, forcing us to rethink the State and its ethical-civilizing rationality (SOUSA, 2020b). Understanding the State, Political Science and its archetypes is necessary to understand the origins of power relations and the ethnic-racial relations that have marked and mark the formation and reproduction of inequity in the history of the human race. Denounced by the marginal literature of black researchers and intellectuals (SOUZA, 2000), the official literature needs supplementation from other perspectives. Considering that despite different historiographical traditions, both for Nietzsche and for Foucault and Paul Ricoeur, the truth is historical, thinking about the interdisciplinarity between history, philosophy and literature, implies building a kind of genealogy of power relations from the perspective of an ethics which is civilizing and epistemic. Considering that mythic narratives can recompose knowledge ethically committed to new epistemologies and new interpretative perspectives. Thus, the importance of mythical literature (SOUSA, 2020, 2020b) for the epistemological recomposition of discourses in biblical literature. One question was the starting point: what are the contributions of mythical literature to the understanding of Political Science? Our aim, then, was to identify aspects of mythical literature capable of contributing to another interpretation for political science. We had for specific objectives: to understand the reason and rationality of state; to analyze the ethical-civilizing rationality in the State; to identify the role of archetypes in mythical literature and their contributions to the formation of the State. Starting from the processes of cultural historical formation and the dialectic present in the ethnic-racial relations in the ethical-civilizing rationalities, the mythical literature (SOUSA, 2020) we used as main references in the study of Egyptian culture and civilization: Camara (2011), Diop (1974, 1991, 2014). Biblical and Egyptian literature also served as a source of bibliographic research. We use a methodology based on DIY (KINCHELOE & BERRY, 2007). We suggest in our work suggests the need to consider mythical literature in the analysis of the relations between power and the State, from that literature as an epistemic locus for the other understanding of the State theory materiality.


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DOI: https://doi.org/10.7213/2318-8065.05.02.p81-98

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