Feminino e mística: ressonâncias trágicas e barrocas do que ultrapassa o fio das palavras

Bruno Albuquerque, Denise Maurano

Resumo


Em seu projeto de retornar à leitura dos textos de Sigmund Freud, de modo a extrair consequências para a clínica e a teoria psicanalítica, Jacques Lacan investigou diversos temas da história do pensamento humano à luz da dinâmica inconsciente. No seu ensino, a dimensão do feminino ocupa um lugar muito particular, que ele articula à experiência mística. O presente artigo destaca alguns pontos centrais deste percurso, traçando aproximações com a tragédia e o barroco. Desse modo, procura mostrar como a psicanálise de orientação lacaniana concebe o feminino não apenas enquanto uma posição na partilha dos sexos, mas também enquanto um lugar mais além da divisão sexual. Em seguida, explora de que maneira essa dimensão que aponta para um gozo Outro, que não o fálico, encontra-se também atrelada ao avanço do tratamento analítico e, em última instância, ao fim de análise. Por fim, investiga de que modo esse processo conecta a perda do asseguramento fálico a uma certa dimensão de dessubjetivação. Esta possibilita um alargamento daqueles enquadramentos que, por meio da operação simbólica denominada complexo de Édipo, delimitam a fantasia inconsciente. Nesse contexto, tratamos, portanto, de um ponto situado mais além do referencial edípico, que ultrapassa o fio das palavras.

Palavras-chave


Feminino; Mística; Jacques Lacan

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DOI: http://dx.doi.org/10.7213/2175-1838.13.espec.DS15

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