Escutar a verdade
Foucault e a constituição ética do sujeito
DOI:
https://doi.org/10.1590/2965-1557.038.e202634302Palavras-chave:
Listening, Care of the self, Ethics, Subject, TruthResumo
Este artigo investiga a escuta como prática filosófica fundamental a partir das análises de Michel Foucault acerca da noção de cuidado de si. Em contraste com a primazia, própria da filosofia moderna, do conhecimento de si, Foucault evidencia que, na Antiguidade, o acesso à verdade exigia um conjunto de práticas ascéticas, entre as quais a escuta ocupa lugar central. Longe de se reduzir à percepção auditiva ou à recepção passiva de conteúdos, ela é compreendida como exercício ético, relacional e político, responsável por possibilitar a incorporação do lógos e a transformação do modo de vida do sujeito. Tal percurso se faz em diálogo com autores antigos e aproximando as leituras foucaultianas das interpretações de Pierre Hadot sobre a filosofia antiga como exercício espiritual. Em um tempo marcado pela dispersão da atenção, pela saturação informacional e pelas dinâmicas digitais de aceleração, é interessante perceber como a escuta, desde uma apreciação crítica da Antiguidade, pode emergir como prática capaz de resistir aos regimes de fragmentação da experiência e de reabrir a questão da verdade como transformação ética do sujeito.
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